Khalid havia solicitado uma auditoria independente.
Alguns familiares concordaram. Outros interpretaram a iniciativa como uma acusação pessoal.
— Meu irmão não queria destruir a família — explicou Samira. — Queria descobrir se os recursos estavam sendo utilizados da maneira que nosso pai havia determinado.
Isabella ouviu atentamente.
A história fazia sentido, mas ainda não explicava a partida repentina.
— Por que ele não me contou?
Samira olhou diretamente para ela.
— Porque tinha medo de que você pensasse que se casar com ele significava entrar em uma disputa familiar. E porque havia outra coisa.
Isabella sentiu o coração acelerar.
— Que coisa?
Samira abriu a bolsa e retirou uma pasta fina.
Dentro havia cópias de documentos e uma fotografia antiga de dois homens diante de um edifício. Um deles era o pai de Khalid. O outro parecia ser um funcionário da fundação.
Samira explicou que, meses antes do casamento, Khalid havia descoberto indícios de que um projeto de assistência médica não recebera todos os recursos previstos. Parte do dinheiro destinado à compra de equipamentos não aparecia nos registros apresentados pela administração.
A descoberta ainda precisava ser investigada. Não era possível afirmar que havia ocorrido um crime, mas existiam inconsistências suficientes para justificar uma auditoria.
Khalid suspeitava que alguém próximo da família pudesse estar envolvido.
— E ele acha que essa pessoa está tentando impedir a investigação? — perguntou Isabella.
— É o que teme. Mas não temos provas suficientes para apontar alguém.
Samira fez questão de esclarecer que a situação não tinha relação com a origem de Isabella nem com o fato de ela ser estrangeira. O conflito envolvia decisões administrativas e relações familiares antigas.
— Meu irmão cresceu acreditando que precisava proteger todos nós — continuou ela. — Quando nosso pai morreu, assumiu responsabilidades demais. Ele acha que, se compartilhar um problema, estará transferindo o peso para outra pessoa.
Isabella se lembrou da varanda na noite do casamento.
Independentemente do que acontecer amanhã, lembre-se de uma coisa: você não fez nada de errado.
Naquele momento, ela havia interpretado a frase como uma despedida antecipada. Agora, começava a compreender que Khalid talvez estivesse tentando prepará-la para uma situação que ele próprio não sabia como enfrentar.
Mas compreender não era o mesmo que perdoar.
— Ele poderia ter confiado em mim — disse ela.
Samira assentiu.
— Poderia. E deveria.
A resposta direta fez Isabella baixar os olhos.
Durante a conversa, Samira explicou que Khalid estava em outra cidade, reunido com advogados e responsáveis pela auditoria. Não estava desaparecido sem deixar rastros, nem havia abandonado formalmente o casamento. Estava tentando resolver a crise antes que mais pessoas fossem envolvidas.
— Ele pretende voltar? — perguntou Isabella.
Samira hesitou.
— Sim. Mas não sei quando. E não posso prometer que voltará com todas as respostas.
Isabella sentiu a frustração crescer.
— Ele não pode decidir sozinho quanto da minha vida eu tenho permissão para conhecer.
— Eu sei.
Samira guardou os documentos.
Antes de se despedir, tirou um pequeno envelope da bolsa.
— Ele pediu que eu entregasse isto se você aceitasse conversar comigo.
Dentro havia uma fotografia de Khalid ao lado do pai, diante do edifício onde funcionava a fundação. No verso, uma frase escrita à mão:
O que recebemos de nossos pais não é apenas uma herança. É também a responsabilidade de decidir o que faremos com ela.
Isabella passou o dedo sobre as palavras.
— Por que ele está me mostrando isso?
Samira respondeu com delicadeza:
— Porque, pela primeira vez, ele precisa decidir se continuará tentando carregar tudo sozinho ou se vai permitir que a mulher que ama conheça o homem que realmente é.
Quando Isabella saiu do café, o céu estava encoberto.
Ela ainda estava magoada. Não sabia se conseguiria confiar em Khalid novamente, nem se desejava participar de uma disputa que não havia escolhido.
Mas uma coisa estava clara: não queria tomar uma decisão baseada apenas no medo.
Naquela noite, escreveu uma mensagem ao marido.
Eu não vou exigir que você resolva tudo hoje. Mas não vou aceitar que decida por mim o que sou capaz de enfrentar. Se você quer construir uma vida comigo, precisa voltar e conversar olhando nos meus olhos.
Dessa vez, a resposta chegou poucos minutos depois.
Você tem razão. Estou voltando amanhã.
Isabella leu a mensagem em silêncio.
Depois colocou o telefone sobre a mesa.
Pela primeira vez desde o casamento, sentiu que a próxima decisão não seria tomada apenas por Khalid.
Ela também teria uma escolha.
E estava determinada a fazê-la com os olhos abertos.
CAPÍTULO 4 — QUANDO ELE VOLTOU, ELA FEZ A ÚNICA PERGUNTA QUE REALMENTE IMPORTAVA
Khalid chegou no dia seguinte, pouco depois das seis da tarde.
Isabella estava em seu apartamento, sentada à mesa da cozinha, quando ouviu a campainha.
Ao abrir a porta, encontrou o marido usando uma camisa clara, sem gravata, com o rosto cansado e a barba por fazer. Ele parecia ter dormido pouco.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Khalid segurava um pequeno buquê de flores brancas. Eram as mesmas flores utilizadas na decoração do casamento.
Isabella olhou para o buquê, depois para ele.
— Você acha que flores vão resolver isso?
Ele baixou os olhos.
— Não.
— Ótimo. Porque não vão.
Khalid assentiu e permaneceu do lado de fora até que ela se afastou para deixá-lo entrar.
Ele colocou as flores sobre a mesa e sentou-se diante dela.
O apartamento era pequeno demais para a distância que havia surgido entre os dois. A cadeira de Khalid ficava próxima à janela, e Isabella podia ouvir o ruído dos carros na rua. Tudo parecia banal, quase absurdo, diante da importância daquela conversa.
— Eu sinto muito — começou ele. — Não apenas por ter saído. Sinto muito por ter permitido que você descobrisse a verdade por meio de uma carta.
— Você me deixou acordar no dia seguinte ao nosso casamento sem saber onde meu marido estava.
Khalid não tentou interrompê-la.
— Eu pensei que você pudesse estar em perigo por causa da disputa familiar — disse ele, por fim. — Recebi informações de que alguém estava tentando pressionar a administração da fundação. Não sabia se era apenas uma tentativa de intimidar a equipe ou se havia algo mais sério acontecendo.
— E você decidiu que a melhor maneira de me proteger era desaparecer?
Ele fechou os olhos por um instante.
— Foi uma decisão errada.
— Você não me contou sobre os problemas, não me explicou o que estava acontecendo e não me deu a oportunidade de decidir se queria enfrentá-los com você.
— Eu sei.
Isabella sentiu a raiva diminuir um pouco, mas a mágoa continuava presente.
— Khalid, eu não me casei com você porque queria uma vida de luxo. Eu me casei porque acreditava que você era um homem em quem podia confiar. Se você não consegue me contar a verdade quando as coisas ficam difíceis, o que estamos construindo?
Ele permaneceu em silêncio.
Depois abriu a pasta que havia trazido.
Dentro estavam os documentos da auditoria, uma carta dos advogados e um resumo das medidas que a fundação havia decidido tomar. Khalid explicou que a investigação ainda estava em andamento e que não existia uma conclusão definitiva sobre as inconsistências encontradas.
Ele não acusou nenhum familiar.
Também não tentou convencer Isabella de que tudo estava resolvido.
— Pedi uma revisão independente dos contratos — explicou. — Os documentos serão examinados por profissionais que não têm vínculos com nossa família. Até que a análise termine, não vou afirmar que alguém cometeu alguma irregularidade.
Isabella leu algumas páginas.
Pela primeira vez, conseguiu entender melhor a dimensão do problema. Havia contratos, prazos, responsabilidades e decisões administrativas que exigiriam tempo para serem esclarecidos.