Ela imaginou que ele estivesse tomando banho ou atendendo a uma ligação. Levantou-se, colocou um robe e caminhou até a sala privativa da suíte.
Não havia ninguém.
O telefone de Khalid não estava sobre a mesa, e sua pasta de trabalho havia desaparecido. A porta que dava para o corredor estava fechada, mas não trancada.
Foi então que Isabella viu o envelope.
Estava sobre a mesa de cabeceira, ao lado da aliança que Khalid usara durante a cerimônia.
Seu primeiro pensamento foi que ele havia preparado alguma surpresa. Talvez precisasse viajar inesperadamente e tivesse deixado uma explicação para que ela não se preocupasse.
Mas, quando abriu o envelope, suas mãos começaram a tremer.
A carta estava escrita à mão.
Minha amada Isabella,
Se você está lendo isto, significa que precisei sair antes de conseguir encontrar coragem para dizer tudo olhando nos seus olhos.
Sei que prometi explicar. Sei também que você merece muito mais do que uma carta depois da noite mais importante de nossas vidas.
Não estou indo embora porque deixei de amar você. Estou saindo porque existe uma situação que deveria ter resolvido antes de pedir que você se tornasse minha esposa.
Isabella releu o parágrafo.
A palavra esposa parecia estranha naquele contexto. Algumas horas antes, ela havia sido pronunciada diante de familiares, amigos e testemunhas. Agora, estava escrita em uma carta que parecia anunciar o fim de alguma coisa antes mesmo de o casamento começar de verdade.
Ela continuou.
Khalid explicava que, durante os últimos meses, havia tentado resolver um conflito familiar envolvendo a administração de uma fundação criada por seu pai. A instituição financiava tratamentos médicos, programas educacionais e projetos de assistência em comunidades com poucos recursos.
Após a morte do pai, diferentes membros da família passaram a discordar sobre a maneira como a fundação deveria ser administrada.
Khalid acreditava que parte dos recursos estava sendo utilizada sem a transparência necessária. Outros familiares consideravam suas exigências uma afronta à autoridade tradicional da família.
A disputa havia se intensificado nas semanas anteriores ao casamento.
Ele acreditava que conseguiria resolver a questão antes da cerimônia, mas um documento recebido na noite anterior mudara a situação.
A carta não explicava todos os detalhes. Dizia apenas que Khalid precisava se afastar temporariamente para evitar que o conflito se transformasse em uma disputa ainda maior.
Isabella sentiu o alívio de quem encontra uma explicação para algo assustador, mas esse alívio desapareceu quando chegou ao último parágrafo.
Existe uma razão pela qual não contei tudo antes do casamento. Tive medo de que você acreditasse que estava se casando com uma família, e não comigo.
Eu queria oferecer a você uma vida tranquila. Queria que nosso primeiro dia como marido e mulher fosse feliz. E, tentando proteger esse momento, cometi o erro de esconder justamente a situação que poderia afetar nosso futuro.
Não sei quanto tempo vou precisar para resolver isso. Mas não quero que você se sinta obrigada a esperar por mim apenas porque assinamos um documento ou trocamos alianças.
Se decidir voltar para casa, vou respeitar sua escolha.
Se decidir ficar, prometo que não vou pedir que abandone seus princípios para se adaptar aos meus problemas.
Perdoe-me por não ter sido corajoso o suficiente.
Khalid.
Isabella sentou-se na beirada da cama.
Não havia nenhuma declaração de separação. Nenhuma acusação. Nenhuma informação que permitisse compreender por que ele precisara sair daquela maneira.
Havia apenas uma carta e uma ausência.
Ela tentou telefonar para o marido.
A ligação caiu na caixa postal.
Tentou novamente.
Nada.
Enviou uma mensagem perguntando onde ele estava e quando voltaria. A mensagem foi entregue, mas não houve resposta.
Às oito horas, uma funcionária do hotel bateu à porta para perguntar se precisava de alguma coisa. Isabella respondeu que estava bem, embora não conseguisse parar de olhar para a aliança sobre a mesa.
Às nove, ligou para a mãe.
Helena atendeu imediatamente.
— Minha filha? Como foi a primeira noite? Você parece diferente.
Isabella tentou responder normalmente, mas a voz falhou.
— Mãe, preciso que você venha me buscar.
O silêncio do outro lado durou apenas um instante.
— Estou indo.
Helena não fez perguntas desnecessárias. Conhecia a filha o suficiente para entender que alguma coisa havia acontecido.
Quando chegou, encontrou Isabella sentada perto da janela, ainda usando o robe branco do hotel. A carta estava sobre a mesa, dobrada cuidadosamente.
Helena a abraçou antes de ler qualquer coisa.
Depois examinou o documento em silêncio.
— Você sabe onde ele foi? — perguntou.
— Não.
— Ele disse que vai voltar?
— Não sei.
Helena respirou fundo.
— Então, por enquanto, não vamos imaginar o que não sabemos.
Isabella sentiu os olhos se encherem de lágrimas.
— E se ele tiver mentido sobre tudo? E se esse casamento tiver sido um erro?
A mãe segurou suas mãos.
— Uma carta não responde a todas as perguntas. Mas você tem o direito de exigir respostas.
Naquela tarde, Isabella voltou ao apartamento onde morava antes do casamento. Não porque tivesse decidido abandonar Khalid, mas porque precisava de um lugar familiar para pensar.
O apartamento parecia menor do que antes.
Havia livros sobre a mesa, uma planta que precisava ser regada e uma fotografia da mãe em uma viagem antiga. Tudo permanecia exatamente como ela havia deixado.
Mas Isabella não era mais a mesma mulher.
Naquela noite, recebeu uma mensagem de um número desconhecido.
Meu nome é Samira Al-Rashid. Sou irmã de Khalid. Precisamos conversar antes que você tome qualquer decisão.
Isabella leu a mensagem três vezes.
Depois respondeu:
Sobre o que precisamos conversar?
A resposta chegou quase imediatamente.
Sobre a carta. E sobre uma coisa que meu irmão não teve coragem de contar a você.
Isabella sentiu um arrepio percorrer os braços.
Pela primeira vez desde que acordara, percebeu que talvez a história fosse muito maior do que um conflito financeiro.
E que o homem com quem havia se casado carregava um segredo que poderia mudar tudo o que ela acreditava saber sobre ele.
CAPÍTULO 3 — A IRMÃ DO MILIONÁRIO REVELOU O QUE A FAMÍLIA TENTAVA ESCONDER
Samira marcou o encontro para a manhã seguinte, em um café tranquilo dentro de um hotel no centro da cidade.
Isabella chegou quinze minutos antes.
Não sabia o que esperar. Imaginava uma mulher fria, talvez ressentida com o casamento do irmão, ou alguém que pretendia convencê-la a desaparecer discretamente da vida da família.
Quando Samira entrou, porém, a primeira coisa que fez foi abraçá-la.
— Sinto muito que você esteja passando por isso — disse em português cuidadoso. — Meu irmão deveria ter conversado com você antes.
A sinceridade da frase surpreendeu Isabella.
As duas se sentaram perto da janela. Samira pediu chá e permaneceu alguns segundos observando a xícara antes de começar.
— Khalid sempre acreditou que precisava resolver todos os problemas sozinho. Nosso pai era assim. Quando alguma coisa dava errado, ele não compartilhava a preocupação com ninguém. Simplesmente desaparecia por algumas horas e voltava com uma solução.
— Mas Khalid não é mais uma criança — respondeu Isabella. — Ele se casou comigo. Eu deveria ter sabido o que estava acontecendo.
— Você tem razão.
Samira não tentou defender o irmão.
Ela explicou que a fundação da família havia sido criada muitos anos antes, quando o pai dos dois decidiu destinar parte de seus recursos a projetos de saúde e educação. A instituição cresceu, passou a colaborar com organizações internacionais e se tornou uma das responsabilidades mais importantes da família.
Depois da morte do pai, a administração ficou dividida entre diferentes parentes. Durante algum tempo, os desacordos eram resolvidos em reuniões privadas. Mais recentemente, porém, surgiram dúvidas sobre contratos e despesas que precisavam ser examinadas com cuidado.