O abrigo improvisado não possuía instalações suficientes para sessenta e dois animais. A ventilação precisava ser melhorada, havia áreas úmidas e alguns cães precisavam de atendimento imediato.
A boa intenção de Lidia não eliminava esses problemas.
Mas, quando as primeiras imagens do interior do navio começaram a circular entre os moradores, outra realidade também se tornou impossível de ignorar.
Os cães não estavam ali por acaso.
Muitos tinham sido abandonados à própria sorte. Alguns haviam chegado feridos, outros eram idosos demais para encontrar facilmente uma família e vários precisavam de acompanhamento veterinário.
Lidia havia tentado mantê-los vivos durante meses, usando os recursos que tinha.
O veterinário responsável pela primeira avaliação, doutor Stefan Pavel, passou boa parte da tarde examinando os animais.
Alguns precisavam de tratamento para problemas de pele. Outros apresentavam sinais de desnutrição, parasitas ou lesões antigas. Os filhotes foram separados dos animais maiores para receber cuidados adequados.
Stefan explicou que a alimentação precisava ser organizada individualmente.
Uma dieta baseada apenas em carne bovina, mesmo quando de boa qualidade, não fornece necessariamente todos os nutrientes de que um cão precisa. Os animais necessitavam de alimentação completa e equilibrada, adaptada à idade, ao peso e às condições de saúde.
Lidia ouviu as recomendações sem tentar se justificar.
— Eu fazia o que conseguia — disse. — Mas sei que não era suficiente.
O veterinário respondeu com gentileza:
— A senhora conseguiu manter muitos deles vivos. Agora precisamos organizar os cuidados para que possam ficar bem.
A polícia, por sua vez, entrou em contato com organizações de proteção animal e com os responsáveis pelo terreno. Era necessário encontrar uma solução legal para o abrigo e garantir que os cães fossem alojados em condições apropriadas.
Nenhum agente prometeu que todos poderiam permanecer no navio.
Na verdade, o plano inicial previa a transferência dos animais que precisassem de cuidados urgentes para instalações temporárias. Os demais seriam avaliados antes de qualquer decisão.
Para Lidia, a possibilidade de separação era dolorosa.
Ela conhecia cada cão pelo nome.
Sabia qual deles tinha medo de trovões, qual precisava de mais tempo para confiar em estranhos e qual sempre tentava dormir perto da porta.
Mas também sabia que não conseguiria continuar alimentando e cuidando de todos sozinha.
Na manhã seguinte, algo inesperado aconteceu.
Ovidiu, o açougueiro que havia chamado a polícia, apareceu no navio acompanhado de sua esposa.
Carregava caixas de alimentos próprios para cães, cobertores e recipientes novos para água.
Lidia ficou surpresa.
— Não precisava trazer tudo isso.
Ovidiu colocou as caixas no chão.
— Eu deveria ter perguntado o que estava acontecendo antes de imaginar o pior. Mas você também deveria ter pedido ajuda.
Ela abaixou a cabeça.
— Eu sei.
Ele não a repreendeu novamente.
— Não podemos mudar o que aconteceu. Podemos tentar fazer diferente agora.
A esposa de Ovidiu começou a organizar os cobertores enquanto ele conversava com os veterinários sobre os alimentos necessários.
Pouco depois, chegaram outros moradores.
Uma professora trouxe toalhas. Um mecânico ofereceu ajuda para consertar uma porta. Dois jovens se dispuseram a transportar os animais que precisavam de atendimento.
Até a senhora que havia contado a Ovidiu sobre a morte de Andrei apareceu com uma caixa de medicamentos veterinários que recebera de uma organização local.
A aldeia, que durante dias havia discutido o mistério, começava a compreender a dimensão do trabalho necessário.
Mas nem todos estavam convencidos.
O proprietário do terreno informou que não autorizaria a permanência dos animais no navio sem uma reforma adequada e um acordo formal. A estrutura apresentava riscos, e a ocupação não poderia continuar da mesma maneira.
Mihai explicou a Lidia que ela precisaria cooperar com o plano de transferência.
— Não estou pedindo que abandone os cães — disse. — Estou pedindo que permita que sejam levados para um lugar seguro.
Lidia olhou para o grande cão castanho que permanecia perto dos filhotes.
— E se ninguém quiser adotá-los?
— Então vamos trabalhar para encontrar organizações que possam recebê-los temporariamente.
— E se os separarem?
Elena respondeu:
— Vamos registrar as necessidades de cada animal e tentar evitar separações desnecessárias. Mas não podemos prometer que todos ficarão juntos. O que podemos garantir é que a decisão será tomada considerando o bem-estar deles.
Lidia permaneceu em silêncio.
Não era a resposta que desejava, mas era honesta.
Naquela tarde, os primeiros cães foram transportados para uma instalação veterinária e para um abrigo regional que havia concordado em recebê-los temporariamente.
A transferência foi organizada por grupos, com atenção especial aos animais mais assustados.
Lidia acompanhou cada saída.
Quando o último veículo deixou a clareira, ela permaneceu diante do navio vazio, segurando a antiga carta de Andrei.
Durante anos, acreditara que manter o abrigo escondido era a única maneira de proteger os animais.
Agora percebia que o segredo também havia impedido outras pessoas de ajudá-la.
O trabalho que começara por amor havia se transformado em uma responsabilidade grande demais para uma única pessoa.
E, pela primeira vez, ela permitiu que alguém compartilhasse esse peso.
Naquela noite, Ovidiu a levou de volta para casa.
Antes de entrar, Lidia olhou para a estrada florestal.
— Você acha que meu filho ficaria decepcionado comigo?
O açougueiro demorou a responder.
— Acho que ele gostaria de saber que você não precisa continuar sofrendo sozinha para honrar a memória dele.
Lidia apertou a carta contra o peito.
Não respondeu.
Mas, depois de meses vivendo em segredo, finalmente conseguiu chorar sem precisar esconder o rosto.
CAPÍTULO 5 — A ÚLTIMA CARTA DE ANDREI E O DIA EM QUE LIDIA DEIXOU DE ESTAR SOZINHA
Três semanas depois, Lidia recebeu uma ligação do veterinário Stefan.
A maioria dos cães havia se adaptado às instalações temporárias. Os casos mais graves continuavam recebendo tratamento, enquanto os animais saudáveis começavam a participar de um programa de adoção responsável.
Alguns precisariam de acompanhamento durante meses. Outros talvez nunca pudessem ser colocados imediatamente em uma nova família, especialmente aqueles que apresentavam medo intenso ou problemas de saúde.
Mas havia progresso.
O veterinário também contou que uma organização regional de proteção animal havia oferecido apoio para encontrar um espaço adequado onde parte dos cães pudesse permanecer enquanto aguardava adoção.
Não seria um abrigo luxuoso. Seria um projeto gradual, sujeito a avaliações, regras de funcionamento e recursos disponíveis.
Lidia ouviu tudo com atenção.
— Posso visitá-los?
— Claro. Vamos organizar as visitas de acordo com a rotina de cuidados.
Ela desligou o telefone e ficou sentada à mesa da cozinha.
Pela primeira vez em muito tempo, não precisava calcular quantos quilos de carne conseguiria comprar no dia seguinte.
Ainda sentia falta dos animais. Ainda se preocupava com os que estavam doentes e com aqueles que demorariam a encontrar uma família.
Mas agora havia profissionais responsáveis pelo atendimento, voluntários para ajudar e um plano que não dependia exclusivamente de suas economias.
Na semana seguinte, Lidia foi visitar o abrigo temporário.
O primeiro cão que reconheceu foi o grande animal castanho que tentara proteger os filhotes no navio.
Ele estava mais limpo, recebia alimentação adequada e já havia sido examinado pelo veterinário. Quando viu Lidia, aproximou-se devagar e cheirou sua mão.
Ela se ajoelhou.
— Olá, meu menino.
O cão encostou a cabeça em seu ombro.
Lidia começou a chorar.
Não era tristeza apenas. Havia alívio, gratidão e uma espécie de paz que ela não sentia desde a morte do filho.
Uma voluntária se aproximou e explicou que o animal ainda precisaria de tempo antes de ser encaminhado para adoção. Era importante observar seu comportamento e garantir que a futura família compreendesse suas necessidades.