A jovem pediu sobras num restaurante de luxo em San Ángel, e todos a encararam como se tivesse entrado com uma doença contagiosa.
O garfo de Dona Teresa Alcázar pairava diante dos seus lábios. Na esplanada do restaurante, por entre buganvílias, copos caros e empresários a discutir investimentos, aquela jovem de roupas esfarrapadas parecia uma ferida aberta.
Não devia ter mais de 23 anos. Vestia um moletom cinzento manchado, ténis abertos e segurava uma bolsa preta contra o peito. Havia sujidade no seu rosto, mas os seus grandes olhos escuros conservavam ainda uma dignidade que nem as ruas tinham conseguido destruir.
"Com licença, minha senhora... posso comer o que a senhora vai deixar?"
Um murmúrio percorreu as mesas. Uma mulher de óculos de marca soltou uma gargalhada seca.
"Que horror." Agora, qualquer pessoa pode entrar aqui.
O gerente, Ramiro, apareceu de imediato, vermelho de vergonha.
“Sra. Alcázar, as minhas desculpas. Esta jovem já sabe que não deve incomodar os clientes.”
Agarrou a jovem pelo braço.
“Não lhe toque”, disse Teresa.
Ela não elevou a voz. Não era necessário. Teresa Alcázar era proprietária de hotéis, prédios de apartamentos e restaurantes em metade da Cidade do México. Quando ela falava assim, até os empregados de mesa sustinham a respiração.
Ramiro largou a jovem.
“Mas, senhora…”
“Tragam-lhe uma cadeira, talheres limpos e o melhor prato da casa.”
A jovem recuou, assustada.
“Não, por favor. Eu só queria o pão. Não quero arranjar problemas.”
Teresa olhou-a com uma ternura que lhe fez tremer os olhos.
“Sente-se comigo. Ninguém deveria ter de pedir autorização para sentir fome.”
A jovem obedeceu com cautela, agarrando a mala como se esta contivesse tudo o que lhe restava na vida.
“Como é que se chama?”
“Marina… Marina Reyes.”
Teresa sentiu uma pontada no peito. Não era o nome. Era a forma como a jovem baixava os olhos. Era a pequena pinta por baixo da orelha esquerda. Era aquele sorriso tímido que só aparecia quando lhe serviam sopa quente.
Era impossível.
A sua filha, Camila, tinha morrido 22 anos antes, num hospital privado em Polanco. Tinha seis meses de idade. Febre, uma noite chuvosa, um médico com um semblante grave e um caixão branco que Teresa nunca tivera coragem de abrir, porque lhe tinham dito que era melhor recordá-la viva.
Mas a Marina tinha os mesmos olhos.
“Tem família?”, perguntou Teresa, quase sem palavras.
Marina largou a colher.
“Cresci num lar de acolhimento em Puebla. Disseram-me que a minha mãe me abandonou quando era bebé. Depois, estudei um pouco, trabalhei, confiei num homem… e acabei assim.”
“Um homem?”
Marina apertou a mala com força.
“Chamava-se Iván. Fez-me assinar empréstimos, disse que íamos abrir um negócio. Desapareceu com o dinheiro e os credores vieram atrás de mim. Estou a dormir onde posso há oito meses.”
A mulher de óculos voltou a falar de outra mesa.
“Ramiro, se aquela mendiga ficar aqui, a minha família nunca mais põe os pés neste sítio.”
Teresa levantou-se lentamente.
“Então não volte.”
O restaurante inteiro ficou em silêncio.
“Esta jovem tem mais dignidade morrendo de fome do que você com todas as suas jóias. E lembro-lhe que este estabelecimento me pertence. Aqui, ninguém é humilhado por pedir comida.”
Marina olhou para ela como se tivesse acabado de presenciar um milagre.
Quando terminaram de comer, Teresa fez algo que surpreendeu até os seus guarda-costas: ofereceu-se para a levar a casa, em Las Lomas.
“Só por uma noite”, disse ela. “Uma cama, um banho quente, roupa lavada. Amanhã, se quiser ir embora, pode.”
Marina hesitou.
“Não me conheces. Eu posso ser uma má pessoa.”
“Podia”, respondeu Teresa. “Mas há algo nos seus olhos que me diz que não veio parar à minha secretária por acaso.”
Marina pegou-lhe na mão.
O que nenhuma das duas viu foi o homem escondido do outro lado da rua, num carro escuro. Iván sorriu ao entrar no SUV de Teresa Alcázar.
E quando leu o apelido na placa, marcou um número.
“Don Rogelio”, murmurou. “Acho que encontrei algo que vale milhões.”