Ela fechou os olhos.
“Ele enviou-me um spray branco.”
Étienne virou-se para ela. Uma dor aguda cruzou-lhe o rosto, mais violenta que a raiva.
“Porque é que não me veio ver?”
A pergunta não era uma acusação. Era pior. Era o resquício de um amor à procura de onde tinha falhado.
Clara colocou as duas mãos na barriga.
“Porque a última coisa que vi antes de fugir foi a sua assinatura no rodapé de uma ordem interna que me declarava um perigo para a empresa. Bastien enviou-me. Pensei que tinha decidido denunciar-me.”
Étienne recuou como se o tivesse atingido.
“Agora já sei.”
O silêncio instalou-se. Um silêncio denso, permeado por oito meses roubados: as consultas médicas em clínicas anónimas, as noites em branco a ouvir passos nas escadas, os ordenados falsificados, os enjoos matinais do início da gravidez, o primeiro pontapé do bebé num quarto com cheiro a detergente da roupa frio.
Étienne ajoelhou-se diante dela. Lentamente. Como se já não tivesse o direito de estar de pé.
"Clara, olha para mim."
Olhou para ele, apesar de si mesma.
"Se soubesse que estava vivo, teria procurado em cada rua de França."
"Também pensavas que o nosso filho estava morto?"
Os seus olhos encheram-se de lágrimas, mas nenhuma caiu.
"Eu nem sabia que ele existia".
Esta frase partiu-a por dentro. Não completamente. Não o suficiente para perdoar. Mas o suficiente para que a sua mão trémula alcançasse a dele.
O bebé mexeu-se.
Étienne olhou para baixo. Clara hesitou, depois colocou a palma da mão sobre a barriga dele. Ele compreendeu sem que ela precisasse de dizer nada. A sua mão seguiu-a, grande, cautelosa, quase desajeitada.
O golpe seguinte veio-lhe sob os dedos.
Étienne inspirou como um homem que acabara de receber a sua primeira prova de vida.
“É um rapaz?”, perguntou.
“Sim.”
“Ele tem nome?”
Clara desviou o olhar.
“Eu queria chamar-lhe Noah. Porque ele teve de sobreviver a um dilúvio.”
Étienne permaneceu imóvel, com a mão sobre a dela.
“Noah”, repetiu.
E pela primeira vez desde que o voltara a ver, Clara reconheceu o homem que fora, sob as cicatrizes do poder.
Depois as janelas tremeram.
Marc pegou imediatamente na sua arma.
Inès dirigiu-se à janela saliente, mal abrindo a cortina.
— Carros lá em baixo. Três. Sem placas.
Étienne levantou-se.
— Bastien.
O telefone fixo do apartamento tocou. Ninguém se mexeu. Étienne pegou no telefone e colocou-o em alta-voz.
A voz de Bastien ecoou pela sala, suave, quase divertida.
— Prima. Que emoção. É como se os mortos andassem agora por Lyon.
Clara sentiu o bebé mexer-se nos seus braços.
Étienne não respondeu.
— Devia devolvê-la, continuou Bastien. Ela já está destruída o suficiente. Uma mulher grávida reaparecer no momento errado deixa os sócios nervosos.
— Tentou matar a minha mulher.
Uma gargalhada.
— Não. Tentei salvar o que o teu pai construiu. Você sempre foi fraco perto dela. Ela fazia-te hesitar. Ela fazia-te querer ser puro. No nosso mundo, Étienne, ser puro significa morrer.
Inès aproximou-se do telefone.
“Roubaste 4,7 milhões aos Delorme. Usaste as nossas empresas de fachada. Achas mesmo que o meu pai vai chamar a isto coragem?”
O silêncio do outro lado da linha durou dois segundos.
“Inès. Brilhante como sempre. Uma pena que tenhas escolhido o lado errado.”
“Eu escolhi o lado que vai sobreviver.”
Bastien suspirou.
“Então abra a porta. Estou a subir.”
A chamada caiu.
Durante alguns segundos, o apartamento transformou-se numa máquina. Marc trancou o elevador privado. Inès enviou os ficheiros encriptados para o pai, para um advogado criminal e, em seguida, para um comandante da polícia que conhecia de uma investigação financeira. Étienne chamou os homens que ainda lhe eram leais, mas Bastien já tinha semeado o caos: um armazém em chamas em Vénissieux, um contabilista desaparecido, dois servidores em baixo.
Clara compreendeu antes dele.
“Ele quer livrar-se de si.”
Étienne virou a cabeça.
“Ele está a criar emergências por toda a parte”, disse ela. “Ele quer que mandes os teus homens para salvar os ficheiros, as contas, as testemunhas. Mas a prova sou eu. E o Noah.”
Inès olhou-a com uma atenção renovada.
“Ela tem razão.”
Étienne fechou os olhos por um segundo. Quando os voltou a abrir, o marido trémulo tinha desaparecido. O chefe tinha voltado.
“Ninguém sai deste piso. Vamos resistir até que a polícia e os Delorme cheguem.”
“A polícia?” perguntou o Marc.
“Sim, a polícia”, afirmou Étienne com firmeza. “Desta vez, Bastien não será enterrado numa rixa familiar.” Será julgado à luz do dia.
Clara encarou-o. Aquelas palavras significavam mais do que uma promessa. No mundo antigo de Étienne, as feridas eram resolvidas entre homens, longe dos tribunais, em escritórios sem janelas. Mas Bastien vencera durante demasiado tempo porque tudo permanecia em segredo.
O segredo matara-a.
A verdade traria-a de volta.
Um clangor metálico ecoou na escadaria de serviço.
Em seguida, um estrondo.
Marc apagou as luzes.