Ricardo Alencar travou bruscamente a sua Hilux preta no meio de uma estrada de terra batida perto de Campinas. O sol do final da tarde castigava, levantando poeira sobre os canaviais, e ao seu lado estava Patrícia Monteiro, a sua noiva, impecável num vestido claro, óculos de sol caros e o telemóvel aberto em conversas sobre a festa de casamento.
Faltavam três semanas para a cerimónia num luxuoso rancho em Itu. Estariam presentes empresários, políticos, um fotógrafo de revista, influencers e até um helicóptero a aterrar no relvado.
Mas, naquele momento, nada disso importava.
Do outro lado da estrada estava Mariana Duarte.
Sua ex-mulher.
Vestia uma blusa desbotada, uma saia de ganga velha, chinelos gastos e um saco de recicláveis pendurado no ombro. Aos seus pés, um saco cheio de latas amassadas. Mas o que deixou Ricardo sem palavras não foi a pobreza.
Foi ver a Mariana com dois bebés nos braços.
Os rapazes dormiam encostados a ela, enrolados em mantas simples, os seus rostos redondos, a pele clara e as madeixas de cabelo castanho-claro a espreitar por baixo dos gorros.
Ricardo sentiu a garganta apertar.
Patrícia baixou o vidro do carro com um sorriso venenoso.
"Ora, Mariana... que queda em desgraça. Depois de roubar jóias, trair um marido rico e fazer de santa, acabou por remexer no lixo com crianças nos braços?"
A Mariana não respondeu.
Não gritou. Não o insultou. Não pediu ajuda.
Simplesmente olhou para Ricardo.
E aquele olhar era pior do que qualquer acusação. Não havia raiva. Havia apenas cansaço. O cansaço de alguém que implorou para que a verdade fosse acreditada e não recebeu nada além de humilhação.
Ricardo recordou a noite em que a expulsou de casa, no Alphaville.
Tinha visto fotos dela a entrar num apartamento com outro homem. Tinha visto extratos bancários estranhos. Tinha visto mensagens impressas. Tinha visto o colar de esmeraldas da mãe escondido numa gaveta do armário da Mariana.
A Mariana chorou de joelhos no corredor.
"Ricardo, por amor de Deus, isto é uma armação. Alguém plantou isto aqui."
Mas ele não quis ouvir.
Perante os funcionários, a mãe, os amigos e Patrícia, que na altura fingia ser amiga da família, Ricardo chamou a Mariana de aproveitadora, ladra e uma vergonha.
Colocou-lhe uma mala quase vazia na mão e mandou-a embora.
Durante um ano, convenceu-se de que tinha feito o que estava certo.
Patrícia tirou uma nota de 200 reais da mala e atirou-a pela janela. O dinheiro caiu no pó perto dos pés de Mariana.
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"Compre fraldas. Não venha depois dizer que o meu futuro marido nunca demonstrou caridade."
A Mariana olhou para o bilhete.
Depois olhou para Ricardo.
Não o apanhou.
Acomodou os bebés contra o peito, levantou o saco de recicláveis com dificuldade e continuou a andar.
O Ricardo não conseguiu ligar o carro.
"De quem são estas crianças?" perguntou em voz baixa.
Patrícia virou-se para ele, irritada.
"E o que é que isso te importa?"
"Elas têm apenas alguns meses."
"Uma mulher separada também pode engravidar, Ricardo. Deixa de te fazer de parvo."
Apertou o volante com força.
"Elas têm os meus olhos."
Patrícia soltou uma gargalhada forçada.
— Ah, pois é. Agora a ladra tornou-se vítima e as crianças são suas? Já se esqueceu de tudo o que ela fez?
Não. O Ricardo não se tinha esquecido.
Mas, pela primeira vez, a dúvida insinuou-se onde antes só havia orgulho.
Nessa noite, não voltou à casa onde Patrícia escolheu as flores e a louça importada. Dirigiu-se directamente para São Paulo e bateu à porta de Otávio Nogueira, o detective privado que tinha montado o processo contra Mariana.
Otávio abriu a porta, pálido.
— Dr. Ricardo… este caso já está encerrado.
— Para mim, está apenas a começar.
— O senhor já viu tudo.
Ricardo entrou sem pedir autorização.
— Vi o que alguém queria que eu visse.
Otávio demorou, mas abriu um armário de metal. Tirou uma pasta antiga, cheia de fotos, recibos, capturas de ecrã e relatórios.
O Ricardo examinou cada página.
No início, eram as mesmas provas que destruíram o seu casamento.
Depois vieram os recibos de depósitos recentes. Grandes somas. Transferências efetuadas após o divórcio.
Tudo ligado a uma conta pertencente a Patrícia Monteiro.
Ricardo sentiu o sangue gelar.
Mais adiante, encontrou uma declaração assinada por um ex-funcionário do apartamento. O homem dizia que as fotos eram encenadas, que o alegado amante era um ator contratado e que o colar da mãe de Ricardo era...