Augusto não tentava substituir o passado por um novo relacionamento. Pelo contrário, falava de sua falecida esposa com carinho e respeito. Para ele, amar novamente não significava apagar quem havia feito parte de sua história.
Marina começou a compreender que a solidão não tinha idade. Um homem de 70 anos podia sentir falta de companhia tanto quanto uma jovem de 27 anos podia sentir falta de segurança emocional.
Certa noite, depois de um jantar tranquilo, Augusto fez uma pergunta que ela não esperava.
— Você já pensou em construir uma vida comigo?
Marina ficou imóvel por alguns segundos.
Ela sabia que existia uma diferença de idade considerável entre eles. Também sabia que muitas pessoas não compreenderiam aquela relação.
— Você está falando sério? — perguntou.
— Estou. Mas não quero que você diga sim por pena, medo ou necessidade. Quero que pense no que realmente deseja.
Marina passou vários dias refletindo sobre a proposta. Não queria tomar uma decisão apenas porque estava cansada de sofrer. Também não queria confundir gratidão com amor.
Conversou com uma amiga de confiança, analisou seus sentimentos e pensou no futuro que imaginava para si mesma.
Finalmente, decidiu aceitar.
O casamento foi pequeno. Não houve uma cerimônia extravagante nem uma multidão de convidados. Apenas algumas pessoas próximas, flores simples e duas pessoas que acreditavam estar começando uma nova etapa.
Mesmo assim, os comentários começaram quase imediatamente.
Alguns convidados questionaram a diferença de idade. Outros insinuaram que Marina estava interessada no dinheiro de Augusto. Houve até quem afirmasse que aquele casamento terminaria antes de completar um mês.
Marina ouviu tudo isso em silêncio. Augusto também percebeu os comentários, mas não tentou responder a cada crítica.
Naquela noite, ele segurou a mão da esposa e disse:
— As pessoas podem ter opiniões sobre nossa vida. O que não podemos fazer é permitir que essas opiniões decidam tudo por nós.
Marina sorriu. Pela primeira vez em muitos anos, acreditou que talvez pudesse construir uma vida diferente.
Mas o que aconteceu dez dias depois mudaria completamente sua compreensão daquele casamento.
Dez dias depois, uma descoberta inesperada
Nos primeiros dias de casamento, Marina procurou se adaptar à nova rotina. Aprendeu onde Augusto guardava seus livros, como ele gostava de tomar café e quais músicas costumava ouvir nas manhãs tranquilas.
Ele, por sua vez, começou a conhecer os hábitos dela. Sabia que Marina gostava de caminhar perto do mar, que ficava nervosa quando precisava tomar decisões importantes e que, apesar de parecer forte, ainda tinha dificuldade para falar sobre algumas lembranças dolorosas.
A casa era confortável, mas não luxuosa. Augusto havia construído sua vida com trabalho e planejamento, e preferia uma rotina simples a demonstrações exageradas de riqueza.
No décimo dia depois do casamento, Marina procurava um documento que precisava ser guardado em uma pasta. Augusto havia pedido que ela organizasse alguns papéis pessoais para que ambos soubessem onde encontrar informações importantes em caso de emergência.
Ao abrir uma gaveta, ela encontrou um envelope antigo com seu próprio nome escrito na frente.
Ficou surpresa.
Não se lembrava de ter recebido aquela carta.
Durante alguns instantes, pensou em chamar Augusto imediatamente. Depois, percebeu que o envelope estava aberto e que havia uma pequena anotação indicando que o documento lhe pertencia.
Ela retirou as folhas com cuidado.
O conteúdo revelou uma informação sobre o passado de Augusto que ele ainda não havia contado por completo. A carta explicava que, anos antes, ele havia tomado uma decisão familiar difícil, relacionada à sua antiga vida e à maneira como lidava com a perda.